Baixinho, tinhoso e esperto. Moleque nascido pelas bandas de Camutanga, Mata Norte de Pernambuco (1899), Francisco, um dos filhos de meu bivô Pedro Freire da Silva e Maria Freire, minha bivó, virou Chico, como todos os Franciscos nascidos e criados por aqui.
Meu bivô se foi logo cedo e Chico, inquieto como ele só, criou asas ainda quase menino. Antes de pensar que era gente já se largou para Ferreiros, onde se estabeleceu como comerciante. Era um lugarejo, na verdade, um pequeno povoado que se instalou pelas cercanias de Camutanga. Eram todos ferreiros que assentaram-se alí para ganhar o pão de cada dia, cuidando dos cavalos das fazendas da região. Chico desfez mochila e alí mesmo ficou. Tomou gosto no lugar. Sem energia elétrica, os ferreiros passavam as noites jogando conversa fora. Contavam a Chico como tudo começou. Chegou um, dois... a coisa foi dando certo e, em pouco tempo o povoado estava formado. Reclamavam apenas da estagnação e da exploração dos fazendeiros, que não davam aos ferreiros o devido retorno pelos seus serviços. Isso indignou o rapaz...
Em 1931 casou com dona Souvenir, como era mais conhecida a Severina de Ferreiros... ou do nordeste, tanto faz... todas são iguais. Aqui, Severina é nome comum, mas para diferenciar, cada uma leva no apelido um traço de sua personalidade, ou então, quando a moça é muito discreta, recebe por sobrenome a alcunha de pertencer à alguém, geralmente o pai ou o marido.... Severina de "Fulano de Tal"... assim ficam conhecidas, identificadas e com donos.
Dona Souvenir lhe deu seis filhos, entre eles, o meu pai. Uma família interiorana emergente, cujos filhos buscam a cidade grande por melhores condições de estudo, típica do nordeste brasileiro: Pai comerciante, mãe que cuida de tudo, três filhas professoras e, como toda família nordestinamente prezada, um médico, um engenheiro e... um padre! Quase tudo como manda o figurino, mas o que deveria ter sido o padre (meu pai, o "Senador"), nunca se deteve a rezas, gostava mesmo de números, namoradas, política e festança. Esse virou economista, casado e com três filhos, netos de Chico Freire. Na falta de "santo" na família, seu Chico, homem católico ferrenho até os dentes, fez laços com a Igreja oferecendo sua casa para missionários que vinham celebrar na cidade, entre eles, Frei Damião já era "gente de casa". A fila de fiéis girava o quarteirão para receber as bênçãos do Santo Frei. Quem tocasse seu roupão franciscano receberia uma graça. Assim diziam e assim acontecia mesmo. Chico Freire não se incomodava com a multidão em sua porta, ao contrário, recebia a todos com alegria e a porta de sua casa nunca teve chaves para seu povo.
Com o convívio com os ferreiros e comércio instalado, o que lhe permitia estar informado de tudo que por alí se passava, o cabra Chico despertou sua vocação de liderança. Com espírito de quem busca o que quer e visão de quem só olha para frente, seu Chico foi brigar com fazendeiros. Não usava de violência de jeito nenhum. Sua arma: conversa bonita; seu ideal: liberdade. Mostrou tim-tim por tim-tim aos donos dos bichos que sem os ferreiros pelas redondezas, os cavalos dariam mais gastos indo à Timbaúba para serem cuidados. Não demorou e Chico já era consultado para tudo nos assuntos do povoado. De pouquinho em pouquinho o cabra ia botando tudo nos trilhos. À ferro e fogo não faltava mais serviço bem pago.
Vivia ocupado com as lideranças políticas da região, buscando melhorias para os ferreiros. Tanto mexeu daqui e dalí, que elevou o povoado à categoria de vila. À essas alturas já era muito querido entre o povo da terra. Para abastecer seu comércio usava produtos dalí mesmo. A agricultura era artesanal, mas suficiente para dar conta da mesa do povo. A vila foi crescendo e ganhou fama de bom lugar pra se viver. Chico continuava na luta. Vendo a quantidade de gente - agora não só mais ferreiros - que chegavam de todo lugar, resolveu ir adiante: transformou a vila antes pertencente à Camutanga e dependente de Itambé, em um pequeno município. Continuava sem luz elétrica e sem água em torneiras. Também não tinha uma só ruela asfaltada.
Com os filhos já crescidos, estudando e trabalhando na Capital - Recife - Chico Freire não se fez de rogado. Tornou-se o primeiro Prefeito Constitucional de Ferreiros em 1965. Aí veio luz elétrica, pavimento das ruas, água nas torneiras e tudo que seu povo precisava para viver com dignidade. As filhas professoras se engajavam nos trabalhos para educação dos filhos dos agricultores e ferreiros do local. O filho médico, que tinha sangue político nas veias, cuidava dos atendimentos de saúde para o povo. Providenciava remédios e transporte para a Capital. Em sua residência no Recife, construiu um galpão para alojar aqueles que necessitavam de tratamento longo e não tinham onde pernoitar. Dividia seus lençóis ao meio para não deixar ninguém descoberto à noite. O engenheiro, um tanto gaiato, não levava jeito para a coisa. Ficou afastado da política, mas não perdia oportunidade de ajudar com suas "receitas caseiras" no tratamento de cobreiro e unha encravada de dois doidinhos que viviam pela cidade e pensavam que o médico era ele. Aquele que deveria ter sido o padre, preferia contribuir articulando os contatos políticos do pequeno município com o mundo dos respeitáveis engravatados da época... quando ainda se encontravam políticos com "gravata limpa", entre eles, o atual Senador da República Marco Maciel, homem distinto de reputação ilibada e conduta exemplar, os deputados Maviael Cavalcanti, Nilson Gibson e outros.
Chico acreditava que enquanto se faz alguma coisa, não se envelhece. Era comum as crianças a sua volta. Ele não as colocava nos braços (como muitos fazem hoje em dia), preferia contar-lhes histórias de assombração, tema predileto dos pequenos que viviam com medo da cumade fulôzinha no meio do canavial.
Eu, ainda bem criança, não sabia bem o que era "ser prefeito", só sabia que era coisa boa. Onde chegava, logo era reconhecida como "a neta de seu Chico". Isso era mágico! Tinha sorvete de graça, balanço no clube só para mim e paparicado em todo canto da cidade. Ia à feira dos domingos sozinha e, para comprar minhas bonecas de plástico, recorria ao velho Chico que sempre estava na calçada com seu chapéu panamá à jogar conversa fora com os agricultores. Ele adorava isso. Certo dia cheguei correndo, esbaforida para pedir dinheiro. Lá estava ele... baixinho, com as mãos cruzadas pelas costas, seu inseparável chapéu e trocando ideia com um agricultor acocorado no pé da árvore. Este, enrolava um cigarro de palha, lambia a emenda do papel e logo começava a baforar um cheiro de mato queimando.
__ Vô, me dá mil! - nem lembro a moeda usada na época, mas ele enfiava a mão no bolso e de lá saiam cinco mil. Era boneca que não acabava mais... minha vó, dona Suva, me dava retalhos para fazer as roupinhas. Meus irmãos brincavam de girar pião na calçada e descer ladeira em carrinho de rolimã.
Seu Chico era homem sério e de gargalhadas silenciosas, só mexia os ombros sacudindo-os para baixo e para cima num rítmo engraçado. Bastava olhar para um neto e seus ombrinhos começavam a balançar. Suas atitudes corretas o tornavam cada dia mais, uma pessoa querida e respeitada entre seu povo.
Em 1986, Chico se foi. Um cortejo o acompanhou do Recife, onde faleceu, até a terra que escolheu para amar. Na entrada da cidade, o povo jogava flores, acenava com lenço branco e corria atrás do carro para dar seu adeus ao homem que dignificou o lugar. Do mais humilde agricultor ao mais ilustre político nacional, alí todos tornaram-se iguais. Num cemitério, embaixo da terra, não há esqueleto melhor que o outro... assim Chico via a vida... essa foi sua última lição.
CHICO FREIRE tinha pouco mais que metro e meio de altura, mas aos olhos d´uma menina encantada, tinha estatura de GENTE GRANDE.